{"id":1445,"date":"2026-06-03T22:39:19","date_gmt":"2026-06-04T03:39:19","guid":{"rendered":"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/?p=1445"},"modified":"2026-06-03T22:39:23","modified_gmt":"2026-06-04T03:39:23","slug":"minha-bolsa-e-um-ninho-de-japiim-cultura-material-entre-comunidades-do-rio-arapiuns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/pt-pt\/minha-bolsa-e-um-ninho-de-japiim-cultura-material-entre-comunidades-do-rio-arapiuns\/","title":{"rendered":"\u201cMinha bolsa \u00e9 um ninho de Japiim\u201d: Cultura Material entre comunidades do Rio Arapiuns"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 Mois\u00e9s de Oliveira Silva. Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia\/Universidade Federal do Par\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 mais de quinze anos venho desenvolvendo pesquisas junto a povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais, principalmente no Nordeste semi\u00e1rido do Brasil, que resulta na tese, \u201c<em>A Semente, a \u00c1rvore e o Encantado: um estudo da ontologia dos povos ind\u00edgenas no Alto Sert\u00e3o de Alagoas,<\/em>\u201d pela Universidade Federal do Par\u00e1-UFPA. No tempo em que desenvolvo esta pesquisa, no semi\u00e1rido, por uma universidade em territ\u00f3rio amaz\u00f4nico, tamb\u00e9m trabalho como professor de sociologia e filosofia no estado do Par\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"510\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mapa-1024x510.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1446\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mapa-1024x510.png 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mapa-300x149.png 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mapa-768x382.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Mapa.png 1430w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 1: Percurso \u00c1gua Branca, Semi\u00e1rido alagoano \u00e0 Santar\u00e9m-PA na Amaz\u00f4nia brasileira. Foto: Google Earth (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me vejo pesquisando povos ind\u00edgenas que se encontram em uma regi\u00e3o com pouca precipita\u00e7\u00e3o pluviom\u00e9trica, clima calorosamente gestado pela caatinga, enquanto trabalho em regi\u00f5es de rios a perder de vista e de v\u00e1rzea amaz\u00f4nica, de vidas humanas em cotidiano aqu\u00e1tico.&nbsp; Me encontro tendo que traduzir constantemente no meu imagin\u00e1rio, a paisagem e os modos de vida, dos repert\u00f3rios de conhecimentos e suas linguagens, entre tudo isso, a educa\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivo entre dois mundos, e entre realidades de um mesmo pa\u00eds, contado pelos modernistas Graciliano Ramos<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> e Dalc\u00eddio Juradir<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, que evocaram majestosamente o Brasil mais profundo. O primeiro tem sua obra refletida na vida nordestina, atrav\u00e9s de uma prosa seca e direta, explorando a interioridade humana e as rela\u00e7\u00f5es sociais no ambiente sertanejo, j\u00e1 o segundo tem a escrita marcada por uma po\u00e9tica das \u00e1guas, que reflete a geografia e a identidade amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a estas tradu\u00e7\u00f5es me vi diversas vezes tendo que formular minhas pr\u00f3prias metodologias de di\u00e1logo e interpreta\u00e7\u00e3o. Por motivo da forma\u00e7\u00e3o em antropologia fui treinado na etnografia, por\u00e9m, em atividade pedag\u00f3gica e sem a intencionalidade direta da coleta de dados propriamente dita, fiz um campo despretensioso, tendo em vista que a modalidade de ensino<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> que trabalho me fez permanecer em \u201ccampo\u201d, dois meses em cada localidade, durante cinco anos, atendendo diversas comunidades da Amaz\u00f4nia paraense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perman\u00eancia diante da diversidade cultural, inevitavelmente despertou o interesse etnogr\u00e1fico, n\u00e3o foram poucas as vezes que me consultei com os estudantes, em grande parte jovens, que desenvolvem com maestria atividades de ca\u00e7a, pesca, agricultura, agrofloresta, cer\u00e2mica e cestaria, dentre tantas outras, bem como, a compreens\u00e3o da dimens\u00e3o cosmol\u00f3gica em localidades como ilhas, v\u00e1rzeas, quilombos e aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afetado pela dist\u00e2ncia de casa, o custo emocional e psicol\u00f3gico me motivou a buscar recursos, manter a sa\u00fade e continuar produtivo, e uma das coisas que me auxiliaram a sentir-me perto de casa foi sempre trazer comigo objetos pessoais que desenvolvem mem\u00f3rias afetivas, de pessoas e lugares que me fazem bem, e este \u00e9 o ponto de partida deste relato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Das tantas experi\u00eancias em campo, uma das mais proveitosas foi na Vila S\u00e3o Miguel do Povo Ind\u00edgena Arapiun, que com meus alunos tratei de quest\u00f5es sociol\u00f3gicas e filosofias n\u00e3o ocidentais, e eles me trouxeram elementos acerca de seres encantados, plantas, t\u00e9cnicas de ca\u00e7a, pesca, cestaria, entre outros assuntos do cotidiano. Enquanto faz\u00edamos esta troca, n\u00e3o podia furt\u00e1-los dos conte\u00fados exigidos pelas normas curriculares.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1449\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4-1024x576.png 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4-300x169.png 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4-768x432.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4-1536x864.png 1536w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-4.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 2: Vila S\u00e3o Miguel do Povo Arapiun. Foto: do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na busca de compreender a realidade da comunidade desenvolvemos uma atividade de cartografia social, onde os estudantes elaboraram mapas, trazendo elementos como estradas, rios, hor\u00e1rios de embarca\u00e7\u00f5es, igrejas, com\u00e9rcios e abastecimento de \u00e1gua. Tamb\u00e9m surgiram elementos cosmol\u00f3gicos, como, moradas de seres encantados, que em sua maioria residem em pedras dentro do rio, mas por motivo da seca, fen\u00f4meno enfrentado pela Amaz\u00f4nia, em raz\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, essas moradas est\u00e3o cada vez mais expostas. Foi em uma dessas aulas que conheci a hist\u00f3ria de Merandolino, que viveu na regi\u00e3o do Rio Arapiun, o homem que se confunde com o mito, pois em diversos relatos teria se encantado, com endere\u00e7o e descendentes que atestam a sua veracidade, mas este assunto \u00e9 para outro relato.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1452\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2-1024x576.png 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2-300x169.png 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2-768x432.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2-1536x864.png 1536w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-2.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 3: Mapa constru\u00eddo pelos alunos da Vila S\u00e3o Miguel. Arquivo do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os objetos que carrego comigo um dos mais recorrentes \u00e9 uma bolsa feita\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 das fibras de caro\u00e1 (<em>Neoglasiovia variegata<\/em>), vegetal do bioma caatinga, no sentido de trazer boas mem\u00f3rias, meu pr\u00f3prio exerc\u00edcio mnem\u00f4nico, posso assim dizer. Elemento expressivo entre os ind\u00edgenas <em>rama <\/em>de Pankararu, no estado de Alagoas. A ideia de rama e tronco s\u00e3o elementos que explicam a compreens\u00e3o ontol\u00f3gica destes povos no \u201cSert\u00e3o\u201d do Brasil, na qual habitam, seres humanos e n\u00e3o humanos, os encantados. O Ai\u00f3, como \u00e9 chamada a bolsa, \u00e9 elemento presente entre os Jiripank\u00f3, Kalank\u00f3, Katokinn, Karuaz\u00fa e Koiupank\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"726\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese-1024x726.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1455\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese-1024x726.png 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese-300x213.png 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese-768x545.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese-1536x1090.png 1536w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Moise\u0301s-fotos-tese.png 1748w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 4: Ai\u00f3, bolsa feita da fibra do caro\u00e1. Foto: do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por diversas vezes levei o Ai\u00f3 a campo, n\u00e3o foi diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Vila S\u00e3o Miguel, uma comunidade situada na Resex Tapaj\u00f3s Arapiuns. No percurso consideravelmente distante de Bel\u00e9m, a capital do estado do Par\u00e1, onde resido, um voo \u00e0s vinte e duas horas, sai do aeroporto e por volta das tr\u00eas horas chega \u00e0 Santar\u00e9m. Geralmente, aguardo o dia amanhecer ainda no aeroporto, pego um taxi at\u00e9 o porto, no centro da cidade, pois a esta hora, os barcos das comunidades j\u00e1 est\u00e3o por ali, como o \u2018Estrela do Arapiuns\u201d. Nele eu guardo minha bagagem, armo minha rede e me dirijo ao Mercado P\u00fablico Dois Mil para fazer as compras para uma semana ou um m\u00eas, compro frutas, verduras, arroz, feij\u00e3o, temperos, evito ao m\u00e1ximo, infelizmente, os perec\u00edveis, compro gelo, para ter alguns itens durante um curto per\u00edodo. A comunidade n\u00e3o tem energia el\u00e9trica todo o tempo, apenas um gerador que funciona das dezoito \u00e0s vinte e duas horas da noite. Saio de Santar\u00e9m por volta das dez horas, junto com moradores de diversas comunidades que margeiam o rio Arapiuns, s\u00e3o de cinco a seis horas de viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os alunos e eu enfrentamos a falta de estrutura das escolas, em especial, esta da Vila S\u00e3o Miguel contava apenas com duas paredes sem reboco para segurar o teto de uma sala, improvisada pela pr\u00f3pria comunidade para garantir as aulas. Certa vez, pendurei o meu Ai\u00f3 em um prego que encontrei em uma das paredes, o que resultou em um burburinho, um cochichado, os alunos come\u00e7aram a observar a bolsa e faziam coment\u00e1rios, ao mesmo tempo, percebi que circulava um papel quase que \u00e0s escondidas, indo de m\u00e3o em m\u00e3o, quis entender, e como todo professor, confisquei, se tratava de um bilhete, com a seguinte frase: \u201c<em>a bolsa do professor, parece um ninho de Japiin, kkk<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1458\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1024x576.png 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-300x169.png 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-768x432.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1536x864.png 1536w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 5: Bilhete escrito pelos alunos, acerca do ninho de Japiin. Arquivo: do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste ponto a aula j\u00e1 tinha tomado um rumo diferente do planejado, eu queria saber o porqu\u00ea da compara\u00e7\u00e3o da bolsa com o ninho, e eles queriam saber, o que \u00e9? Como \u00e9? Por que \u00e9? Quem fez? Como fez? De que fez? E finalmente, porque fez? Dessa forma estabelecemos um di\u00e1logo bem interessante, fundamentado na partilha do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-5-768x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1461\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-5-768x1024.png 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-5-225x300.png 225w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-5.png 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 6: \u00c1rvore na Vila S\u00e3o Miguel, no Rio Arapiuns. Foto: do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse foi o ponto de partida para algumas reflex\u00f5es te\u00f3ricas mais apuradas, comecei explicando que a bolsa \u00e9 feita da fibra de uma brom\u00e9lia que tem lugar na cosmologia de diversos povos do Nordeste do Brasil, falei tamb\u00e9m sobre a exist\u00eancia de seres encantados, que \u00e9 um termo tamb\u00e9m usual entre os Arapiun, bem como a t\u00e9cnica envolvida na produ\u00e7\u00e3o, e em contrapartida pedi que me explicassem o que \u00e9 um Japiin. Me disseram que se trata de um p\u00e1ssaro que faz seus ninhos semelhante a minha bolsa, e trouxeram alguns elementos, entre eles, o senso de comunidade, pois o Japiin escolhe uma \u00e1rvore alta onde exista a presen\u00e7a de uma col\u00f4nia de vespas que auxilia na prote\u00e7\u00e3o de seus filhotes, de predadores. Embora esses p\u00e1ssaros se alimentem, entre outras coisas, de insetos, n\u00e3o \u00e9 o caso das vespas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Envolvido no estudo do Ai\u00f3 e dos ninhos de Japiin, percebi o fasc\u00ednio e a busca por decifrar o encanto depositado naquelas tecnologias, parafraseando Alfred Gell (1992)<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, quando escreve sobre \u201ca tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia\u201d, no sentido de que o artes\u00e3o imprime na sua obra toda a t\u00e9cnica na qual fora iniciado, sendo o objeto a continuidade de gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de uma mesma sociedade. De acordo com Gell, essa concep\u00e7\u00e3o de arte n\u00e3o pode ser separada da sua finalidade pr\u00e1tica, ou seria meramente est\u00e9tica. Quando nos colocamos a analisar a t\u00e9cnica investida na produ\u00e7\u00e3o, a mat\u00e9ria, a sociedade que a produziu e as ferramentas utilizadas, \u00e9 onde estamos suscet\u00edveis ao encanto depositado no objeto. O Ai\u00f3, estava em pleno uso, n\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o de transportar objetos, e sim, na veicula\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no sentido de Marcel Jousse (2020)<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> podemos observar a percep\u00e7\u00e3o da natureza no sentido mim\u00e9tico, n\u00e3o na compara\u00e7\u00e3o imediata da bolsa com o ninho, mas na busca de uma equival\u00eancia visual, no sentido do gesto expressivo que afirma que o indiv\u00edduo \u00e9 resultado de uma reprodu\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica de t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas culturais que resulta em uma vis\u00e3o conjunta do mundo, a partir de suas viv\u00eancias coletivas, sendo tanto a constru\u00e7\u00e3o quanto a interpreta\u00e7\u00e3o da cultura material resultado de uma linguagem pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O povo Arapiun da Vila S\u00e3o Miguel tem como uma das principais caracter\u00edsticas a produ\u00e7\u00e3o de cestaria da palha da palmeira da tucum\u00e3 e tamb\u00e9m reproduzem pelo gesto de tecer o mimetismo do seu pr\u00f3prio povo, ou seja, eles tamb\u00e9m t\u00eam a capacidade de depositar encanto em suas tecnologias, suscitando o fasc\u00ednio de quem busca decifrar suas linguagens, de um gesto expressivo e ancestral gravado nas palhas da tucum\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"664\" src=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1024x664.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1464\" srcset=\"https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1024x664.jpg 1024w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-300x195.jpg 300w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-768x498.jpg 768w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin-1536x996.jpg 1536w, https:\/\/amazon.uniandes.edu.co\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Semina\u0301rio-Amazon-Basin.jpg 1665w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Figura 7: Cestaria do Povo ind\u00edgena Arapiun. Foto: do autor (2024).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender o porqu\u00ea de uma bolsa pendurada em um prego, de uma parede sem reboco da escola, em uma comunidade ind\u00edgena, do rio Arapiuns, na Amaz\u00f4nia paraense, pareceu mais interessante que Marx, Weber e Durkheim, expoentes da sociologia e filosofia ocidental. Ent\u00e3o, tenho me convencido da necessidade de uma abordagem voltada para os sistemas de conhecimentos locais em sala de aula, percebendo a cultura material como um dos diversos elementos que podem contribuir com uma educa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima de povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e interpreta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio amaz\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> GELL, Alfred, \u201cThe technology of enchantment and the enchantment of technology\u201d In: J. Coote &amp; A. Shelton, Anthropology, Art and Aesthetics. Oxford, Clarendon Press, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> JOUSSE, Marcell. Estudios de psicologia lingu\u00edstica: El estilo r\u00edtmico y mnemot\u00e9cnico entre los verbo-motores. Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico. Cidad de M\u00e9xico: Instituto de investigaciones Antropologicas, 2020.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Graciliano Ramos (1892-1953), escritor brasileiro do s\u00e9culo XX, pertencente \u00e0 segunda fase do modernismo. Nascido em Quebr\u00e2ngulo, Alagoas. Entre seus livros mais conhecidos est\u00e3o \u201cVidas Secas\u201d, \u201cS\u00e3o Bernardo\u201d e \u201cMem\u00f3rias do C\u00e1rcere\u201d. Sua escrita \u00e9 marcada por um profundo conhecimento da vida humana e pela den\u00fancia das desigualdades sociais, em especial do Nordeste brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Dalc\u00eddio Jurandir (1909-1979) escritor brasileiro nascido na Vila de Ponta de Pedras, no Arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3, Par\u00e1. Ele se destacou por retratar a realidade amaz\u00f4nica em sua literatura. Sua obra mais conhecida \u00e9 \u201cChove nos Campos de Cachoeira\u201d, que faz parte do \u201cCiclo do Extremo-Norte\u201d, um conjunto de dez romances que abordam a vida na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Sistema de Organiza\u00e7\u00e3o Modular de Ensino, SOME, \u00e9 uma modalidade de Ensino institu\u00edda pelo estado do Par\u00e1, com o objetivo de atender povos ind\u00edgenas e comunidade tradicionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Mois\u00e9s de Oliveira Silva. 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