Renata Utsunomiya. Universidade de São Paulo, Instituto de Energia e Ambiente, Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental. Analista na rede GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental1
Nas duas margens
Árvores sem fim
Barcos a chegar
Cinco dias de viagem
Apertados na floresta
De redes de dormir
(poesia haiku de Sueichi Egashira)
Olhar a beira do porto do Ver o Peso, em Belém, me fez refletir sobre memórias nipo-brasileiras ancestrais que navegaram e navegam nas águas dos rios da Amazônia. Ali me recordo de estórias e imagens que atravessam a história e se encontram através do tempo, como confluências dos muitos rios da bacia amazônica. Meu avô retornando de sua primeira visita ao Japão e parando no porto de Belém, as fotos de meu tio-primo nas madrugadas da Feira do Açaí, as embarcações que meu tio trabalhava, e eu ali a observar e refletir sobre trajetórias que levam (e levaram) nós, nipo-brasileiros, à Amazônia.

A Amazônia, através do meu olhar, perpassa pela minha identidade cultural enquanto descendente (neta) de japoneses imigrantes. Nesse texto reflito sobre essas memórias nipo-brasileiras que são minhas, ou de parentes e daqueles que me antecederam – meus ancestrais – e as relações criadas com o território amazônico. Assim, essas memórias trazem reflexões sobre percursos e caminhos de águas que escolhemos, embarcações que navegaram mares e rios, refletindo também sobre a imigração de japoneses para o Brasil e, particularmente, da presença de nikkeis nesse território e as confluências entre as culturas japonesa e amazônida.
O poema haiku que inicia esse texto é de meu avô Sueichi Egashira, que imigrou jovem na década de 1920 e se estabeleceu no noroeste do estado de São Paulo. Ditian[1] Sueichi tinha apreço pela escrita e escreveu crônicas, diários de viagens e poesias, que ele juntou no livro escrito em japonês “Recordações do passado: Notas de um imigrante no Brasil (1928-1996)” finalizado em 1997, e que foi traduzido pós-mortem, já em 2022. Na década de 1960, após anos residindo no Brasil, já casado com minha avó Tomeko e com filhos pequenos, Sueichi conseguiu retornar e visitar o Japão, novamente de navio, porém com nova rota passando pelo Canal do Panamá, como descreve sobre o retorno:
No trajeto, passamos novamente pelo Canal do Panamá, agora no sentido contrário, e paramos no Porto de Belém, na foz do Rio Amazonas. Aqui, os imigrantes a caminho de Tomé-Açu foram transferidos a dois novos barcos menores, onde nos despedimos e eles seguiram pelo Rio Acará em direção a seu destino. (Egashira, 2022, p.9)
Conhecer a Amazônia era um sonho dele, e a viagem para Belém e Manaus que realizou nos anos 1980 marcou Sueichi e inspirou poesias e reflexões. Além de visitas nas duas cidades, o percurso foi realizado de embarcação do tipo recreio, no ano de 1981 (Figura 2). No capítulo “Diário de viagem ao Rio Amazonas”, Sueichi descreve sobre essa viagem que realizou com a batian[1] Tomeko, a filha Celina e a família de seu filho Vitório que já residia em Belém. Na ocasião, Vitório Egashira trabalhava na Empresa de Navegação da Amazônia. Nas suas narrativas há profundas reflexões sobre o imaginário desse território como “inferno verde”, retórica muito presente à época no país.

Na década de 80, durante a ditadura militar era muito presente a ideia de “integração nacional”, época do avanço dos projetos de colonização, avanço da construção da Rodovia Transamazônica e a máxima de “integrar para não entregar” a Amazônia para o estrangeiro, posicionando a floresta como um obstáculo, um “inferno” a ser conquistado. Sueichi comenta sobre o que ouvia antes de visitar a Amazônia, ora como “inferno”, ora como “paraíso verde”, e seu diário de viagem navega por essa dicotomia, a qual ele ressalta a autossuficiência das populações locais em seu “paraíso”, frente a abundância provida pelos rios e floresta, com uma visão curiosa e por vezes até talvez demasiadamente romântica, a partir do que vivenciou em sua viagem com seu olhar japonês. Ao andar pelo centro de Manaus, Sueichi discorre sobre os fenótipos dos habitantes, que também remete em um poesia haiku[1]:
Havia poucos brancos e negros puros, e aparentemente os brancos que vimos na cidade eram turistas. Avistei também algumas pessoas que se pareciam com japoneses, mas eram provavelmente índios assimilados.
Ó, Manaus
Das pessoas baixas
Falsos compatriotas
(Egashira, 2022, p.94)
Como descreveu Flávio Augusto Sidrim Nassar: “Olhinhos puxados, cabelos pretos, grossos, lisos” na poesia concreta que abre o livro de fotografias Japanamazônia: confluências culturais (Akao, 2014)[1] no qual brinca com as palavras e a relação entre caboclos e japoneses que chegaram na Amazônia. Este livro, organizado por Makiko Akao, traz olhares sobre a interligação das culturas japonesa e amazônida, a partir das fotografias de Alberto Bitar, Miguel Chikaoka e Paula Sampaio nas regiões onde houve imigração japonesa. Miguel, primo do meu pai Júlio, cresceu na região rural de Registro (estado de São Paulo) e na década de 80 mudou-se para Belém.
No prefácio do livro Japanamazônia, Reiko Muto, imigrante japonesa do pós-guerra e professora da Universidade Federal do Pará, cita sobre os primeiros imigrantes japoneses que chegaram na década de 1920, os trabalhos acadêmicos e jornalísticos sobre esse período e descreve sobre as fotografias da publicação:
As imagens dessa história traduzem os sentimentos difusos das emoções, sofrimentos e alegrias, principalmente da interação cultural entre o oriente e o ocidente. Muitas vezes, o encontro das culturas representa conflitos, aculturação e desculturação, como acontece com o encontro das águas claras e escuras dos rios Amazonas e Negro, onde se dá o embate inicial, em seguida correm lado a lado com as perdas e ganhos para depois se misturarem numa paisagem única. (Akao, 2014, p.19)
A beleza do encontro das águas dos rios Amazonas e Negro como metáfora dessa confluência cultural, também foi presenciada por ditian Sueichi que a descreveu em uma das estrofes do poema tanka[1] chamado Amazônia:
(…)
Em busca de
paisagens desconhecidas na Amazônia,
levo na mala
o encontro das águas
que se recusam a se misturar.
(…)
(Egashira, 2022, p.234)
Refletir sobre essas confluências de grupos imigrantes também é pensar em processos de desterritorialização e reterritorialização, como descreveu a jornalista e historiadora Rose Silveira (Akao, 2014, p.25) a partir desses conceitos propostos pelo antropólogo Nestor Canclini, o qual também afirma que “todas as culturas são de fronteira”. Rose também fala sobre os “descaminhos de uma cultura imigrante”, ao sintetizar sobre o trabalho dos fotógrafos no livro Japanamazônia. O desafio de buscar “estilhaços de tradição” e “reminiscências de memória” de grupos imigrantes em processo de reterritorialização:
(…) assentamento dos códigos de uma nova cultura na fixação em um novo território, pois não há transferência automática dos signos de uma cultura no deslocamento geográfico. Esse trânsito é desregulado, implicando conflito, partilha social dos códigos, e sujeito a perdas, acréscimos e renovações de sentido [Rose Silveira] (Akao, 2014,p.25)
As fotografias desse livro trazem imagens cotidianas de imigrantes japoneses da Amazônia que mostram também o apreço destes em relação a cultura local, como no ato de comer peixe acari em Monte Alegre, nos discos de composições de carimbó de Milton Yamada, e nas famílias de Tomé-Açu que cultivaram juta, pimenta-do-reino e atualmente são referências em sistemas agroflorestais na Amazônia. A imigração japonesa na Amazônia é um tema presente em publicações das associações nipo-brasileiras, sendo estudada por diferentes pesquisadores como Reiko Muto, Emanuel Oliveira Júnior e Francisco Rodrigues da Silva Neto. Este último cita em sua dissertação a obra de Akira Nagai, cujo título me chamou atenção: “Um Nikkei da terra dos Tembés”


O povo indígena Tembé que é originário dessa região de Tomé-Açu, é retratado na capa da obra observando de longe um barco no rio; já na contracapa há a imagem do Monte Fuji, símbolo do Japão, e, abaixo, um autorretrato do autor quando criança apanhando um caju, enquanto ao fundo está a mesma embarcação da capa, realçando a percepção de habitarem o mesmo ambiente (Silva Neto, 2007).
Nesse sentido, Miguel Chikaoka também traz a referência do Monte Fuji em sua obra, na fotografia “Vila Primavera” no qual a ponta da canoa registrada na vila que dá nome à obra, remete ao célebre cartão postal japonês.

Essas memórias, obras literárias e imagens trazem inúmeras reflexões sobre o fato de ser ao mesmo tempo brasileiro e japonês e de, muitas vezes ser confundido como estrangeiro em seu país, como comentou Miguel:
“não sou nem uma coisa, nem outra. Eu vivo numa mediação cotidiana. É um privilégio viver nessa mediação, pois meus procedimentos vêm dessa interface. Quando fui ao Japão, percebi que poderia me comunicar numa perspectiva japonesa. Então é uma postura diante da vida” [Miguel Chikaoka] (Akao, 2014, p.29)
Essas diversas camadas de memória confluem com a minha trajetória, enquanto nikkei da 3ª geração que nasceu e cresceu no estado de São Paulo, ao começar a trabalhar e residir na Amazônia em 2014, particularmente na região do Médio Xingu, Pará. Enquanto cientista ambiental interdisciplinar e buscando a transdisciplinaridade ao trabalhar e pesquisar com povos indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia, meu caminho percorreu tópicos como a navegação indígena e, principalmente, a relação entre grupos sociais e os rios da Amazônia e as ameaças sobre infraestruturas, como a construção de Hidrelétricas. Em meu percurso deparei reiteradamente com as contradições do dito “desenvolvimento” e “progresso” proposto para o território, que quase sempre não escuta as vozes que ali residem.
Assim, retomo as impressões de meu ditian Sueichi e a dicotomia sobre esse imaginário amazônico nos anos 80. Atualmente estou me debruçando sobre como as políticas de transporte na Amazônia estão sendo implementadas, e como há planos de grandes hidrovias, principalmente para o escoamento de grãos. Um processo neocolonial agora inserido em um contexto geopolítico global que persiste em colocar o Brasil como apenas produtor e exportador de commodities. Novamente, nesse processo, povos indígenas, ribeirinhos e pescadores estão sendo ignorados. Por outro lado, meu trabalho e pesquisa junto aos povos Arara e Juruna da Volta Grande do Xingu, desde 2014, me trouxe um olhar para saberes de rios, relações de coexistência com a natureza, cuidados ao andar na mata e o rio e a agência de seres e espíritos das águas que me narraram anciões, sobretudo o pajé e historiador Leôncio Arara (in memoriam) (Arara et al., 2020). Culturas originárias onde o rio, e seu pulso natural, é central e sustenta toda uma rede multiespécie, onde a humanidade não é o centro, mas apenas mais um elemento dessa extensa rede. A partir de trabalhos e pesquisas sobre a presença indígena na história regional da Volta Grande do Xingu[1], passei a refletir também sobre a minha ancestralidade, quando comecei a visitar e dialogar mais com meus familiares que residem na Amazônia. Além disso, me estimulou a buscar tradutores para o livro de ditian[2] e pesquisar mais sobre história do Japão e dos imigrantes no Brasil.
A confluência do meu percurso com a de meus familiares é nítida na visibilização da memória daqueles que são afetados por grandes obras de infraestrutura, como no trabalho de fotojornalismo de Chikaoka sobre os atingidos pela Hidrelétrica de Tucuruí, nos anos 1980.

A partir dessas narrativas e de memórias que confluem, reflito sobre fundamentos culturais japoneses e a relação com o território amazônico. Nas palavras de Sueichi admirando por horas o horizonte infinito de águas ao navegar o rio Amazonas, penso em um fundamento nítido da cultura japonesa, a contemplação da natureza. Enquanto praticante da pintura aguada japonesa, o Sumi-ê, aprendi com o meu professor Carlos Ragazzo sobre a vitalidade rítmica da natureza, e de como o Sumi-ê retrata motivos da natureza não à guisa de realizar uma cópia desta, e sim de absorver a vitalidade rítmica, a forma como ela é concebida, aliada a prática das pinceladas únicas no papel de arroz. Como dizia o mestre de Carlos, Massao Okinaka (precursor do Sumi-ê no Brasil): “quer pintar bambu? Passe 10 anos olhando bambu”. A pintura japonesa enquanto uma arte zen, como discorre Eugen Herrigel no livro “A Arte cavalheiresca do arqueiro zen”, também remete os ofícios artísticos orientais ligados à espiritualidade. Assim, um outro fundamento japonês que emerge é o olhar sobre a memória, e a importância da preservação de ofícios e de patrimônios culturais, um caminho que inspiro nas trajetórias do casal Miguel Chikaoka e Makiko Akao, que tanto se dedicam a salvaguarda de patrimônios culturais. Assim, também penso em um terceiro fundamento, o de trabalhar de forma conjunta, nítida, na história dos imigrantes japoneses que buscavam sempre construir associações e cooperativas, como ainda acontece na região de Tomé-Açu, por exemplo.
Retorno à imagem do porto do Ver-o-peso como o local que acionou esse percurso de memórias confluentes, durante a visita no Seminário Conectar a fronteira amazônica em Belém, em março de 2025. Reflito sobre o contexto atual de 2025, ano que em Belém irá sediar a Conferência do Clima (COP-30), olhando a Feira do Açaí cercada por tapumes em reforma, como em muitas outras áreas da cidade. Apesar de nunca ter presenciado a Feira do Açaí que ocorre nas madrugadas, pude conhecê-la através das fotos de Miguel na exposição Encontro das Águas, que ocorreu na Casa das Onze Janelas em 2019[1]. Essa exposição, junto a realização de outros trabalhos posteriores de pesquisa, me trouxeram a reflexão sobre a atualmente mais discutida sociobioeconomia da Amazônia, tendo o açaí como produto expoente e valorizado internacionalmente. Apesar disso, há também estudos (como os do professor Eduardo Brondízio, da Universidade de Indiana) que demonstram como o aumento da exportação pode levar a comunidades ribeirinhas do entorno de Belém a adotar práticas de manejo menos sustentáveis.
Assim, a partir de memórias afetivas pessoais e familiares que, como eu, realizaram trajetos amazônicos movidos por uma curiosidade latente, navegamos em confluências que nos ajudam a pensar outros futuros em tempos de emergência climática e crise ambiental mundial. As palavras do pensador quilombola Nego Bisco (in memoriam) que reverberam sobre a importância de sermos seres “confluentes” e “compartilhantes” me parecem confluir com o fundamento coletivo presente na cultura japonesa e em outras asiáticas. De forma semelhante, Ailton Krenak nos relembra sobre a indissociável relação dos povos indígenas e a natureza, as vezes ligadas por relações de parentesco, e de como o ato de retirar a dimensão sagrada atribuída a esta abre margem para uma visão extrativista e utilitária dos ditos “recursos naturais”.
Assim, nesse caldeirão cultural brasileiro e amazônico, onde há diversas e ricas amazônias: indígena, negra, cabocla, japonesa, entre outras, fica uma grande reflexão: Quais confluências culturais nos podem repensar futuros possíveis? Talvez a grande confluência seja a do “ser humano com a natureza” como afirmou a fotógrafa Paula Sampaio ou o entrelaçamento com a terra e a paisagem, como colocou Mariano Klautau Filho (Akao, 2014), e as inspirações que emergem do grandioso rio Amazonas que inspirou as palavras de meu ditian.
Palavras grandiosas
Vão se exaurindo
Diante do Rio Amazonas
(poesia haiku de Sueichi Egashira)
Sinto o vento imponente
do rio Amazonas
no tremor da minha rede
(poesia haiku de Renata Utsunomiya)[1]
[1] Poesia feita sob inspiração de Sueichi Egashira em 09/11/2025, durante a Caravana da Resposta, na viagem de ferry boat de Santarém a Belém para a Conferência das partes, COP-30.
[1] Exposição conjunta de Miguel Chikaoka e Luiz Braga. Catálogo disponível em: https://museus.pa.gov.br/midias/anexos/261_vvf_catalogo_virtual_encontro_das_aguas_-_copia_-_copia.pdf. Acesso 18/04/2025.
[1] Trabalho realizado junto a Hilton Nascimento e Maria Elisa Ladeira, que também me provocavam sobre memória e a busca da história da própria ancestralidade.
[2] Desde 1997, nenhum descendente de Sueichi havia lido o livro por não saberem a língua japonesa, e a tradução ocorreu entre 2020-2022, finalizando num lançamento de uma edição bem limitada e familiar. O livro não é disponível publicamente, mas há ideias de publicar alguns trechos deste futuramente.
[1] Outra modalidade de poesia curta japonesa, com 31 sílabas.
[1] Akao, Makiko (org.). Japanamazônia: confluências culturais / Alberto Bitar, Miguel Chikaoka, Paula Sampaio. 2 ed, Belém: Kamara Kó Fotografias: UFPA/PROINTER, 2014. Disponível em: https://livrosdefotografia.org/publicacao/30128/japanamazonia-confluencias-culturais. Acesso: 20/04/25.
[1] Haiku são poemas curtos japoneses, também chamados de haikai
[1] Avó na língua japonesa
[1] Avô na língua japonesa, e como eu o chamava (e muitos outros netos de japoneses).
