José Moisés de Oliveira Silva. Programa de Pós-Graduação em Antropologia/Universidade Federal do Pará
Há mais de quinze anos venho desenvolvendo pesquisas junto a povos indígenas e comunidades tradicionais, principalmente no Nordeste semiárido do Brasil, que resulta na tese, “A Semente, a Árvore e o Encantado: um estudo da ontologia dos povos indígenas no Alto Sertão de Alagoas,” pela Universidade Federal do Pará-UFPA. No tempo em que desenvolvo esta pesquisa, no semiárido, por uma universidade em território amazônico, também trabalho como professor de sociologia e filosofia no estado do Pará.

Me vejo pesquisando povos indígenas que se encontram em uma região com pouca precipitação pluviométrica, clima calorosamente gestado pela caatinga, enquanto trabalho em regiões de rios a perder de vista e de várzea amazônica, de vidas humanas em cotidiano aquático. Me encontro tendo que traduzir constantemente no meu imaginário, a paisagem e os modos de vida, dos repertórios de conhecimentos e suas linguagens, entre tudo isso, a educação escolar.
Vivo entre dois mundos, e entre realidades de um mesmo país, contado pelos modernistas Graciliano Ramos[1] e Dalcídio Juradir[2], que evocaram majestosamente o Brasil mais profundo. O primeiro tem sua obra refletida na vida nordestina, através de uma prosa seca e direta, explorando a interioridade humana e as relações sociais no ambiente sertanejo, já o segundo tem a escrita marcada por uma poética das águas, que reflete a geografia e a identidade amazônica.
Em meio a estas traduções me vi diversas vezes tendo que formular minhas próprias metodologias de diálogo e interpretação. Por motivo da formação em antropologia fui treinado na etnografia, porém, em atividade pedagógica e sem a intencionalidade direta da coleta de dados propriamente dita, fiz um campo despretensioso, tendo em vista que a modalidade de ensino[3] que trabalho me fez permanecer em “campo”, dois meses em cada localidade, durante cinco anos, atendendo diversas comunidades da Amazônia paraense.
Essa permanência diante da diversidade cultural, inevitavelmente despertou o interesse etnográfico, não foram poucas as vezes que me consultei com os estudantes, em grande parte jovens, que desenvolvem com maestria atividades de caça, pesca, agricultura, agrofloresta, cerâmica e cestaria, dentre tantas outras, bem como, a compreensão da dimensão cosmológica em localidades como ilhas, várzeas, quilombos e aldeias.
Afetado pela distância de casa, o custo emocional e psicológico me motivou a buscar recursos, manter a saúde e continuar produtivo, e uma das coisas que me auxiliaram a sentir-me perto de casa foi sempre trazer comigo objetos pessoais que desenvolvem memórias afetivas, de pessoas e lugares que me fazem bem, e este é o ponto de partida deste relato.
Das tantas experiências em campo, uma das mais proveitosas foi na Vila São Miguel do Povo Indígena Arapiun, que com meus alunos tratei de questões sociológicas e filosofias não ocidentais, e eles me trouxeram elementos acerca de seres encantados, plantas, técnicas de caça, pesca, cestaria, entre outros assuntos do cotidiano. Enquanto fazíamos esta troca, não podia furtá-los dos conteúdos exigidos pelas normas curriculares.

Na busca de compreender a realidade da comunidade desenvolvemos uma atividade de cartografia social, onde os estudantes elaboraram mapas, trazendo elementos como estradas, rios, horários de embarcações, igrejas, comércios e abastecimento de água. Também surgiram elementos cosmológicos, como, moradas de seres encantados, que em sua maioria residem em pedras dentro do rio, mas por motivo da seca, fenômeno enfrentado pela Amazônia, em razão das mudanças climáticas, essas moradas estão cada vez mais expostas. Foi em uma dessas aulas que conheci a história de Merandolino, que viveu na região do Rio Arapiun, o homem que se confunde com o mito, pois em diversos relatos teria se encantado, com endereço e descendentes que atestam a sua veracidade, mas este assunto é para outro relato.

Dentre os objetos que carrego comigo um dos mais recorrentes é uma bolsa feita das fibras de caroá (Neoglasiovia variegata), vegetal do bioma caatinga, no sentido de trazer boas memórias, meu próprio exercício mnemônico, posso assim dizer. Elemento expressivo entre os indígenas rama de Pankararu, no estado de Alagoas. A ideia de rama e tronco são elementos que explicam a compreensão ontológica destes povos no “Sertão” do Brasil, na qual habitam, seres humanos e não humanos, os encantados. O Aió, como é chamada a bolsa, é elemento presente entre os Jiripankó, Kalankó, Katokinn, Karuazú e Koiupanká.

Por diversas vezes levei o Aió a campo, não foi diferente em relação à Vila São Miguel, uma comunidade situada na Resex Tapajós Arapiuns. No percurso consideravelmente distante de Belém, a capital do estado do Pará, onde resido, um voo às vinte e duas horas, sai do aeroporto e por volta das três horas chega à Santarém. Geralmente, aguardo o dia amanhecer ainda no aeroporto, pego um taxi até o porto, no centro da cidade, pois a esta hora, os barcos das comunidades já estão por ali, como o ‘Estrela do Arapiuns”. Nele eu guardo minha bagagem, armo minha rede e me dirijo ao Mercado Público Dois Mil para fazer as compras para uma semana ou um mês, compro frutas, verduras, arroz, feijão, temperos, evito ao máximo, infelizmente, os perecíveis, compro gelo, para ter alguns itens durante um curto período. A comunidade não tem energia elétrica todo o tempo, apenas um gerador que funciona das dezoito às vinte e duas horas da noite. Saio de Santarém por volta das dez horas, junto com moradores de diversas comunidades que margeiam o rio Arapiuns, são de cinco a seis horas de viagem.
Os alunos e eu enfrentamos a falta de estrutura das escolas, em especial, esta da Vila São Miguel contava apenas com duas paredes sem reboco para segurar o teto de uma sala, improvisada pela própria comunidade para garantir as aulas. Certa vez, pendurei o meu Aió em um prego que encontrei em uma das paredes, o que resultou em um burburinho, um cochichado, os alunos começaram a observar a bolsa e faziam comentários, ao mesmo tempo, percebi que circulava um papel quase que às escondidas, indo de mão em mão, quis entender, e como todo professor, confisquei, se tratava de um bilhete, com a seguinte frase: “a bolsa do professor, parece um ninho de Japiin, kkk”.

Neste ponto a aula já tinha tomado um rumo diferente do planejado, eu queria saber o porquê da comparação da bolsa com o ninho, e eles queriam saber, o que é? Como é? Por que é? Quem fez? Como fez? De que fez? E finalmente, porque fez? Dessa forma estabelecemos um diálogo bem interessante, fundamentado na partilha do conhecimento.

Esse foi o ponto de partida para algumas reflexões teóricas mais apuradas, comecei explicando que a bolsa é feita da fibra de uma bromélia que tem lugar na cosmologia de diversos povos do Nordeste do Brasil, falei também sobre a existência de seres encantados, que é um termo também usual entre os Arapiun, bem como a técnica envolvida na produção, e em contrapartida pedi que me explicassem o que é um Japiin. Me disseram que se trata de um pássaro que faz seus ninhos semelhante a minha bolsa, e trouxeram alguns elementos, entre eles, o senso de comunidade, pois o Japiin escolhe uma árvore alta onde exista a presença de uma colônia de vespas que auxilia na proteção de seus filhotes, de predadores. Embora esses pássaros se alimentem, entre outras coisas, de insetos, não é o caso das vespas.
Envolvido no estudo do Aió e dos ninhos de Japiin, percebi o fascínio e a busca por decifrar o encanto depositado naquelas tecnologias, parafraseando Alfred Gell (1992)[1], quando escreve sobre “a tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia”, no sentido de que o artesão imprime na sua obra toda a técnica na qual fora iniciado, sendo o objeto a continuidade de gerações e gerações de uma mesma sociedade. De acordo com Gell, essa concepção de arte não pode ser separada da sua finalidade prática, ou seria meramente estética. Quando nos colocamos a analisar a técnica investida na produção, a matéria, a sociedade que a produziu e as ferramentas utilizadas, é onde estamos suscetíveis ao encanto depositado no objeto. O Aió, estava em pleno uso, não na função de transportar objetos, e sim, na veiculação de uma ciência ancestral.
Já no sentido de Marcel Jousse (2020)[2] podemos observar a percepção da natureza no sentido mimético, não na comparação imediata da bolsa com o ninho, mas na busca de uma equivalência visual, no sentido do gesto expressivo que afirma que o indivíduo é resultado de uma reprodução mimética de técnicas e práticas culturais que resulta em uma visão conjunta do mundo, a partir de suas vivências coletivas, sendo tanto a construção quanto a interpretação da cultura material resultado de uma linguagem própria.
O povo Arapiun da Vila São Miguel tem como uma das principais características a produção de cestaria da palha da palmeira da tucumã e também reproduzem pelo gesto de tecer o mimetismo do seu próprio povo, ou seja, eles também têm a capacidade de depositar encanto em suas tecnologias, suscitando o fascínio de quem busca decifrar suas linguagens, de um gesto expressivo e ancestral gravado nas palhas da tucumã.

Sendo assim, não é difícil compreender o porquê de uma bolsa pendurada em um prego, de uma parede sem reboco da escola, em uma comunidade indígena, do rio Arapiuns, na Amazônia paraense, pareceu mais interessante que Marx, Weber e Durkheim, expoentes da sociologia e filosofia ocidental. Então, tenho me convencido da necessidade de uma abordagem voltada para os sistemas de conhecimentos locais em sala de aula, percebendo a cultura material como um dos diversos elementos que podem contribuir com uma educação mais próxima de povos indígenas, comunidades tradicionais e interpretação do território amazônico.
[1] GELL, Alfred, “The technology of enchantment and the enchantment of technology” In: J. Coote & A. Shelton, Anthropology, Art and Aesthetics. Oxford, Clarendon Press, 1992.
[2] JOUSSE, Marcell. Estudios de psicologia linguística: El estilo rítmico y mnemotécnico entre los verbo-motores. Universidad Nacional Autónoma de México. Cidad de México: Instituto de investigaciones Antropologicas, 2020.
[1] Graciliano Ramos (1892-1953), escritor brasileiro do século XX, pertencente à segunda fase do modernismo. Nascido em Quebrângulo, Alagoas. Entre seus livros mais conhecidos estão “Vidas Secas”, “São Bernardo” e “Memórias do Cárcere”. Sua escrita é marcada por um profundo conhecimento da vida humana e pela denúncia das desigualdades sociais, em especial do Nordeste brasileiro.
[2] Dalcídio Jurandir (1909-1979) escritor brasileiro nascido na Vila de Ponta de Pedras, no Arquipélago do Marajó, Pará. Ele se destacou por retratar a realidade amazônica em sua literatura. Sua obra mais conhecida é “Chove nos Campos de Cachoeira”, que faz parte do “Ciclo do Extremo-Norte”, um conjunto de dez romances que abordam a vida na Amazônia.
[3] Sistema de Organização Modular de Ensino, SOME, é uma modalidade de Ensino instituída pelo estado do Pará, com o objetivo de atender povos indígenas e comunidade tradicionais.
