MEMÓRIA CULTURAL EXISTÊNCIA E RESISTÊNCIA INDÍGENA NO ALTO RIO NEGRO 

Odanilde Freitas Escobar, também identificada como Adana na etnia indígena Baré. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural PPGDS do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará, Brasil. 

 1. O Silêncio que Nunca Foi Total 

Falar sobre o Alto Rio Negro é falar de histórias ancestrais, de povos que aprenderam a viver em harmonia com os rios, as florestas, os animais e os espíritos da natureza. É também falar de uma existência mais profunda, que sobreviveu aos séculos de apagamento imposto pela colonização e pelas missões religiosas. Hoje, essa resistência se transforma em movimento. Um movimento de resgate, de reconexão e de orgulho. 

A colonização europeia no noroeste amazônico deixou marcas profundas. Mas mesmo com todos os esforços para apagar as culturas indígenas, essas raízes permaneceram firmes, ocultas em cantos sussurrados, em grafismos rabiscados no chão, em adornos guardados às escondidas. Hoje, essas memórias emergem com força — nas escolas, nas universidades, nas festas religiosas, nos corpos pintados das crianças, nos saberes compartilhados entre gerações. 

 2. A Chegada das Missões e o Projeto de Apagamento Cultural 

Em 1916, os missionários salesianos chegaram à região de São Gabriel da Cachoeira. Em 1923, fundaram a missão de Taracuá. E em 1928, estabeleceram a Missão de Iauareté, um dos marcos mais significativos dessa presença. Eles escolheram esses locais por estarem em pontos estratégicos de encontro entre diferentes povos indígenas, como os Tukano, Baré, Dessana, Tariana e outros. 


 Figura 1 Dormitório das meninas, missão Salesiana de Iauaretê Fonte: instituto do patrimônio histórico e 
artístico nacional (IPHAN) 
Figura 2 Alunos Indígenas na Missão Salesiana em Iauareté Fonte: instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (IPHAN) 

A missão foi construída com a ajuda dos próprios indígenas, muitos dos quais acreditavam que os padres trariam proteção contra os seringueiros e patrões violentos. Mas o que veio foi outro tipo de opressão. Com a justificativa de “civilizar” os povos, os missionários passaram a impor uma nova forma de viver: vilas católicas, internatos, alfabetização em português, proibição das línguas nativas, repressão aos rituais e destruição dos objetos sagrados. 

3. As Escolas da época que apagaram, mas Também Plantaram Rebeldias 

Muitas famílias enviaram seus filhos às escolas dos missionários acreditando que lá estariam protegidos. No entanto, esses espaços se tornaram centros de disciplinamento e silenciamento cultural. As crianças não podiam falar sua língua. Os cantos sagrados eram proibidos. As meninas tinham seus cabelos cortados, e os meninos eram obrigados a vestir roupas ocidentais. Os adornos, os maracás, os colares, as pinturas tudo foi condenado como “coisa do demônio”. 

Mas mesmo nesses espaços de opressão, houve resistência. Algumas crianças, ao voltarem para suas comunidades, lembravam de um canto, de uma palavra, de uma dança. E aos poucos, como sementes lançadas ao vento, essas lembranças começaram a brotar outra vez. 

4. objetos e alguns saberes Destruídos 

Os objetos de poder dos kumu, baya, yaí, (ou como a maioria conhece, os pajés) como cuias pintadas, ervas medicinais, instrumentos cerimoniais foram confiscados. Alguns foram queimados, outros jogados nos rios por medo das represálias. Outros ainda foram levados para longe, e hoje estão trancados em vitrines de museus no Brasil e na Europa, rotulados como “artefatos indígenas”. 

Esses objetos não eram simples “artesanato”. Eram tecnologias espirituais, ferramentas de cura, pontes entre mundos. Sua retirada causou desequilíbrios profundos nos modos de vida e nas cosmologias indígenas. E até hoje, a dor dessa perda é sentida nas comunidades. 

5. A Força das Mulheres na Memória e no Resgate 

As mulheres indígenas, muitas vezes esquecidas nas narrativas oficiais, foram e continuam sendo as principais guardiãs da memória. Foram elas que continuaram a ensinar os filhos em segredo, que esconderam os adornos para usá-los em festas escondidas, que mantiveram viva a oralidade, passando adiante as histórias dos antepassados. 

Os quadros, artefatos arqueológicos que vi me fizeram lembrar da minha avó, por exemplo, nunca foi a Belém, mas me contava histórias com detalhes que hoje vejo retratados em museus e livros. Ela sabia dos massacres, fugas, casamentos rituais, alianças entre povos. Sabia dos grafismos, dos potes, dos cantos dos pássaros. Minha avó é, sem saber, uma grande historiadora do nosso povo. 

6. O Tempo de Hoje 

Em 2025 no Município de São Gabriel da Cachoeira, vejo com alegria o retorno da cultura aos espaços públicos. As escolas indígenas hoje têm professores que falam as línguas originárias. As crianças aprendem a desenhar grafismos em papel em sala de aula, mas também nos próprios corpos. O breu, que antes era escondido, agora é queimado para defumar as igrejas em eventos de cerimônias religiosas solenes. 

No município de São Gabriel da Cachoeira, as apresentações das1 agremiações Baré, Tukano e Filhos do Rio Negro mostram a beleza da diversidade indígena. Os cocares voltam a brilhar, os chocalhos soam, as pinturas ganham novas formas. É emocionante ver a força dos jovens, que dançam e cantam com orgulho. Muitos desses jovens nem conheceram os avós que sofreram a repressão, mas carregam suas marcas no corpo e na alma. 

7. A Igreja e os Novos Caminhos do Diálogo 

Hoje, mesmo a Igreja Católica caminha junto com os povos indígenas. Em festas solenes, é comum ver a abertura com cantos sagrados e danças tradicionais. Entramos na igreja com nossas roupas cerimoniais, nossas flautas, cocares e pinturas. Os padres não só aceitam mas também participam. A fumaça do breu se mistura com o incenso. O sagrado indígena e o cristão agora compartilham o mesmo espaço. 

Isso não apaga o passado de repressão, mas mostra que é possível construir um novo caminho, de respeito e escuta. 

8. Viagem a Belém: Museus, Dor e Despertar 

Minha visita a Belém foi um momento de dor e despertar. Ao ver os objetos em museus, senti como se reencontrasse partes perdidas de mim mesma. Vi urnas, flechas, colares, polidores, afiadores portáteis. Em outra visita, vi quadros enormes com um líder indígena sentado, rendido, sua flecha quebrada ao lado e, foi doloroso. Ali eu pensei: quanto sangue, quanta humilhação, quanta força para sobreviver. 

Também pensei no absurdo de tantas escavações arqueológicas feitas sem consultar os povos locais. Arqueólogos, mesmo bem-intencionados, muitas vezes invadem territórios sagrados, tiram urnas do chão como se fossem uma coisa qualquer. E depois as exibem em vitrines. Isso fere. Isso desequilibra nosso mundo e caminhos construídos e deixados pelos nossos ancestrais, adoece a todos do planeta. Mas muitos não percebem, porque já se perderam da natureza há muito tempo. 

9. A Arqueologia Precisa nos Ouvir 

Não somos contra a ciência. Mas queremos respeito. Queremos que arqueólogos e pesquisadores venham às comunidades, conversem com os mais velhos, escutem os especialistas indígenas. Muitos de nós sabem exatamente onde estão enterrados os potes, as urnas, os instrumentos. Sabem porque foram deixados ali. Sabem que não devem ser tocados e não deveriam escavar e tirar do lugar sagrado. 

Tirar esses objetos do chão é como arrancar um coração ainda batendo. É preciso construir uma nova ciência, uma arqueologia que dialogue com o saber indígena, que reconheça que nossos avôs e avós sabiam muito antes que a universidade existisse. 

10. Uma História que é Nossa e ainda está sendo escrita 

Nossa história não começa em 1500. Ela começa muito antes e continua sendo escrita agora nas escolas, nas comunidades, nos museus, nas universidades e ouras instituições. Resgatar nossos cantos, nossas línguas, nossos grafismos e objetos não é “voltar ao passado”, mas garantir o futuro. 

Se hoje falo, é porque minha avó falou. Se hoje escrevo, é porque muitas mulheres guardaram palavras dentro de si. Se hoje ensino, é porque muitos professores indígenas enfrentaram dificuldades imensas para se formar e voltar às suas comunidades, e até hoje ainda estou aprendendo coisas novas. 

E se hoje dançamos, cantamos, usamos nossos adornos, é porque existimos e não vamos mais permitir que nos calem. 

Conclusão: O Resgate é Coletivo e Está em Curso 

O resgate da cultura indígena no Alto Rio Negro não é obra de uma só pessoa. É um esforço coletivo. É feito por professores, artistas, lideranças, mães, jovens, pesquisadores, anciãos, nossas crianças. É feito com amor, com dor, com coragem. Ainda enfrentamos muitos desafios: preconceito, desinformação, racismo, ameaças aos territórios. 

Mas também temos vitórias: Temos escolas bilíngues, grupos culturais fortes, jovens que dançam, cantam, pintam e escrevem. Temos voz. 

E vamos continuar falando. Porque essa história é nossa. E ninguém mais vai apagá-la. 


Abaixo, deixo algumas imagens de brincos, colares, artesanatos que usamos no nosso dia a dia. 

Figura 2 colar com semente de tento, pena e fio de tucum Foto: Odanilde Freitas Escobar,2025 
Figura 3. Colares de sementes de tento, tucumã, açaí, e tucum Foto: Odanilde Freitas Escobar,2025 
Figura 5. Brincos de tento e tucum Foto: Odanilde Freitas Escobar,2025 
Figura 4. Brincos de Pena e Pluma Foto: Odanilde Freitas Escobar,2025 

Figura 6. Município de São Gabriel da Cachoeira Am Fonte: Kildeir Monteiro 
Figura 7. Abano, trançado com talos de tucum, mede 35 cm de comprimento e 31 cm de largura. Usado para atiçar fogo, ou fumaça de breu, serve para virar beiju no forno 
Figura 8. Balaio, feito de talo de arumã ou cipó uambé, material de uso tradicional da mulher indígena. Foto: Odanilde Freitas Escobar,2025 

REFERENCIAS 

ALMEIDA, O.P. Lugares sagrados e sítios aqueológicos no entorno da comunidade matapi do baixo uaupés. Aru: revista de pesquisa Intercultural da Bacia do Rio Negro,Amazônia.v.3, p. 25-40, 2019. 

BARRETO, João Paulo Lima. Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma “teoria” sobre o corpo e o conhecimento prático dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro. 2021. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Amazonas, Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Manaus, p.190, 2021 

MARTINS, L., Fonseca-Kruel, V., CABALZAR, A., Azevedo, D. L., MILLIKEN, W., Nesbitt, M., & Scholz, A. A Maloca entre Artefatos e Plantas: Guia de Coleção Rio Negro de Richard Spruce em Londres. São Paulo: ISA-Instituto Sociombiental, 2021. 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). O prédio das missões salesianas no Alto Rio Negro. 1º Superintendência Regional Amazonas e Roraima. Manaus: IPHAN, 2020. 

NEVES, Eduardo. A história dos Tariano vista pela oralidade e pela arqueologia. Rotas de criação e transformação: narrativas de origem e povos indígenas do Rio Negro. São Paulo: Instituto Socioambiental, p. 223-245, 2012. 

  1. Grupos, pessoas indígenas que se unem com mesmo interesse em comum, para apresentar, contar, reviver e viver a cultura e história dos povos do Alto Rio Negro.   ↩︎
Scroll al inicio