Imagens que retornam: o clima na foz da bacia Amazônica 

Luiza Proença. Doutoranda em Filosofia pela PUC-Rio

Fig 1. Propaganda da construção do projeto Porto Futuro, em Belém, março de 2025. Foto Luiza Proença.

Abril de 2025. Nas ruas de Belém, a imagem do futuro retorna, impressa nos tapumes que tomam conta da paisagem urbana e transformam a cidade em um verdadeiro «grande canteiro de obras» – expressão já recorrente na imprensa e nas conversas entre os moradores. Em destaque no jornal, o governador do Pará, Helder Barbalho, comemora: “Hoje, Belém é a cidade do Brasil com maior nível de investimento público entre todas as mais de 5.600 cidades do nosso país”[1]. Com os preparativos para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (a COP30, em novembro de 2025) – iniciativa central do governo Lula para reposicionar a imagem do Brasil no cenário internacional – os tapumes anunciam a construção do “Porto Futuro II”. O projeto dá continuidade a um complexo turístico e de lazer iniciado por Barbalho em 2016, ocupando a área portuária desenvolvida durante o auge da borracha na Amazônia, no início do século XX, quando a matéria-prima era exportada principalmente para abastecer a nascente indústria automobilística.

O “Porto Futuro II” reitera um velho clichê das narrativas da modernidade. Contudo, se quisermos levar a sério a ameaça das mudanças climáticas, devemos considerar o dilema exposto pelo filósofo Bruno Latour: “entre modernizar ou ecologizar, é preciso escolher”[2]. Em outras palavras, já não é possível conciliar a ideia de um futuro resultante de um progresso incessante com a urgência de preservar as condições de vida no planeta. Ecologizar exige a criação de novas imagens de futuro, que se distanciem das versões I, II (haverá uma III?) promovidas por um modelo de desenvolvimento que persiste como diretriz da política estatal brasileira, mesmo em governos que se apresentam como ideologicamente opostos.

Alyne Costa e Rodrigo Nunes mostram que, embora o Partido dos Trabalhadores tenha surgido, no final da década de 1980, com a promessa de acolher as demandas de ambientalistas e povos indígenas, ao chegar ao poder em 2003 tornou-se, em grande medida, surdo a essas vozes. Sob o argumento de combater o atraso econômico e reduzir a desigualdade social, os governos Lula (2003–2010) e Dilma (2011–2016) naturalizaram o extrativismo e resgataram o imaginário desenvolvimentista de outras épocas. Esse retorno simbólico ao passado manifesta-se, por exemplo, nas imagens emblemáticas de Lula com as mãos sujas de óleo, celebrando a descoberta do pré-sal no final de 2006 — gesto que estabelece um elo visual com a figura de Getúlio Vargas, nos anos 1950, por ocasião da criação da Petrobras. Com a retomada dos planos para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, o PT reafirmou o que Costa e Nunes chamam de “sublime desenvolvimentista” – uma estética encenada em vistas aéreas de megaprojetos públicos, concebidas para comover pela escala e pela promessa de transformação. Gradualmente, essa imagem foi sendo substituída pelo “sublime da destruição”, evidenciado pelas catástrofes ambientais, como o rompimento das barragens em Minas Gerais[3].

No final de 2022, logo após sua última eleição, Lula formou uma comitiva para apresentar o Brasil como candidato a sediar a COP30 em uma capital amazônica. Entre os integrantes estavam o governador Helder Barbalho, além das futuras ministras Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas. Com essa iniciativa, Lula renovava sua responsabilidade em relação à agenda ambiental e ao protagonismo do Brasil na luta contra as mudanças climáticas, buscando reverter o legado de destruição deixado pelo governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) – um governo marcado pela aceleração do desmatamento da floresta amazônica. Poucos meses depois, na posse de seu terceiro mandato, em 1º de janeiro de 2023, uma imagem se destacou e foi amplamente divulgada na mídia e nas redes sociais: Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto para a entrega da faixa presidencial acompanhado por um grupo de pessoas que representavam a diversidade do povo brasileiro. Cuidadosamente planejada, a cena simbólica se alinhava com o slogan «União e Reconstrução» do novo governo.

A presença do cacique Raoni Metuktire nessa cerimônia emocionou muitos espectadores, pois reforçava ainda mais o sinal de mudança de postura do novo governo em relação às lutas históricas de ambientalistas e povos indígenas. Raoni ganhou projeção internacional no final dos anos 1980, quando percorreu o mundo ao lado do cantor britânico Sting para angariar apoio à demarcação de territórios indígenas na região do Xingu. Também nessa época, destacou-se por sua firme oposição à construção da hidrelétrica de Belo Monte (então chamada de Kararaô, que significa “grito de guerra” na língua Kayapó), uma disputa emblemática que ficou marcada pela imagem-gesto de Tuíre Kayapó ao encostar um facão no rosto do diretor da Eletronorte, empresa responsável pelo projeto

De volta a 2025, as disputas retornam em meio aos preparativos para transformar Belém em um cartão-postal ecológico na COP30 e às recentes constatações de que a ameaça de a Amazônia atingir o que os cientistas chamam de «ponto de não retorno» já não é mais vista como um cenário futuro, mas como algo que já está acontecendo[4]. Lula ignora as graves consequências de projetos que perpetuam a dependência de economias predatórias como o agronegócio e os combustíveis fósseis, enquanto Raoni pede ao Presidente que não aprove a construção da Ferrogrão e nem explore petróleo na foz do Amazonas: “Se isso acontecer, eu sou pajé também, eu já tive contato com espíritos que sabem do risco que a gente tem de continuar trabalhando dessa forma, de destruir, destruir e destruir, com consequências muito grandes que não conseguiremos parar”[5].

Fig 2. Cartazes em frente ao Gueto Hub, em Belém, março de 2025. Foto Luiza Proença.

Na periferia de Belém, o Gueto Hub utiliza arte e ativismo como ferramentas para disputar o imaginário da Amazônia e reivindicar justiça ambiental. Fundado em 2020 por Jean Ferreira, no bairro do Jurunas, o Gueto Hub é um centro cultural comunitário que abriga uma biblioteca, um café e o Museu D’Água. Sob a direção da historiadora Ruth Nayane Corrêa Ferreira, o Museu preserva um acervo de fotografias que resgatam a memória histórica e artística dos igarapés do bairro, transformados ao longo do tempo em esgotos a céu aberto devido à negligência estatal. A relação do Gueto Hub com esses corpos d’água — seja por meio do Museu D’Água ou de um projeto de pintura mural que narrou a importância de restaurar os igarapés urbanos –  chamou a atenção de movimentos ambientais e, em 2023, resultou no convite para integrar a COP das Baixadas, uma coalizão de organizações populares engajadas com a agenda climática na Amazônia[1]. A COP das Baixadas propõe a inclusão das chamadas Yellow Zones (Zonas Amarelas), o envolvimento das populações mais afetadas pelas mudanças climáticas – os “sem parte” –, nas próximas Conferências das Partes, cujas decisões oficiais ocorrem nas Blue e Green Zones (Zonas Azul e Verde), restritas às autoridades e ao setor privado. Jean Ferreira, que atualmente é também um dos curadores da próxima Bienal das Amazônias,  descreve essa ação como uma forma de “dar um retorno para a comunidade”[2], expressando um compromisso com aqueles que não têm representação ou voz política, ao mesmo tempo em que estimula a criação de imaginários alternativos ao paradigma de futuro reproduzido pela tradição moderna.


[1] Para uma descrição de alguns desses movimentos ver: GUERREIRO NETO, Guilherme. Diplomatas da floresta lutam para conquistar um lugar no centro do debate. Sumaúma, 18 mar. 2025. Disponível em: https://sumauma.com/diplomatas-da-floresta-lutam-para-conquistar-um-lugar-no-centro-do-debate/. Acesso em: 3 maio 2025.

[2] Em relato para os participantes o encontro do projeto “Conectar a fronteira amazônica” em 28 de março de 2025. 


[1]  “COP 30: obras do Parque da Cidade e Porto Futuro já estão cerca de 80% concluídas”. O Estado do Pará, 24 abr. 2025. Em: https://estadodoparaonline.com/cop-30-obras-do-parque-da-cidade-e-porto-futuro-ja-estao-cerca-de-80-concluidas/. Acesso em: 3 maio 2025.

[2] LATOUR, Bruno. Investigação sobre os Modos de Existência: Uma Antropologia dos

Modernos. Petrópolis: Vozes, 2019, p.20.

[3] COSTA, Alyne; NUNES, Rodrigo. From Tuíra to the Amazon Fires: The Imagery and Imaginary of Extractivism in Brazil. In: DEMOS, T. J.; SCOTT, Emily Eliza; BANERJEE, Subhankar (orgs.). The Routledge Companion to Contemporary Art, Visual Culture, and Climate Change. Nova York: Routledge, 2021. p. 345-365.

[4] FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, Londres, v. 626, n. 7999, p. 555–564, fev. 2024.

[5] VILELA, Pedro Rafael. Raoni recebe medalha de Lula e alerta sobre a exploração do petróleo. Agência Brasil, 4 abr. 2025. In: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-04/raoni-recebe-medalha-de-lula-e-alerta-sobre-exploracao-de-petroleo. Acesso em: 3 maio 2025.

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